Estudo de pesquisadores de Harvard mostra que falhas inevitáveis em sistemas físicos podem destruir vantagens exponenciais da computação quântica — e redefine os limites da chamada 'aprendizagem quântica'

© Shutterstock – Yurchanka Siarhei
A computação quântica foi apresentada como uma promessa quase mítica da ciência contemporânea: máquinas capazes de resolver problemas impossíveis para computadores clássicos, revolucionando áreas que vão da criptografia à descoberta de medicamentos. Mas um novo estudo publicado na nesta sexta-feira (29), revista Nature Communications, lança um alerta contundente: no mundo real, o ruído físico pode eliminar justamente as vantagens que tornavam os computadores quânticos extraordinários.
O trabalho, intitulado Noisy Quantum Learning Theory, foi conduzido pelos pesquisadores Jordan Cotler, Weiyuan Gong e Ishaan Kannan, ligados à Harvard University e à Harvard Quantum Initiative. O artigo propõe uma nova teoria para entender como computadores quânticos aprendem sobre sistemas físicos quando enfrentam um inimigo inevitável: a interferência ambiental.
A descoberta toca no coração de uma das maiores ambições científicas do século XXI. Até agora, muitos dos ganhos teóricos da computação quântica assumiam condições perfeitas — qubits totalmente protegidos, medições ideais e ausência de perturbações externas. O novo estudo argumenta que essas condições são, em muitos casos, irreais.
“Os mesmos mecanismos que produzem vantagens exponenciais em ambientes ideais são justamente os mais frágeis ao ruído”, escrevem os autores.
Na prática, isso significa que operações consideradas fundamentais para o poder quântico — como medições coletivas envolvendo múltiplos qubits entrelaçados — podem perder eficiência de maneira dramática quando submetidas a pequenas taxas de erro.
A pesquisa introduz uma nova classe teórica chamada NBQP (“Noisy BQP”), concebida para modelar computadores quânticos tolerantes a falhas, mas conectados a sistemas físicos imperfeitos. O conceito procura representar situações reais de laboratório, nas quais um computador quântico precisa interagir com materiais, sensores ou estados quânticos desconhecidos sem conseguir protegê-los totalmente contra ruídos externos.
Segundo os autores, mesmo computadores quânticos avançados não conseguem “corrigir” completamente os erros provenientes do sistema experimental observado. Isso cria uma assimetria fundamental: o computador pode proteger seus próprios cálculos, mas não consegue blindar a própria natureza.
O estudo demonstra matematicamente que certas vantagens exponenciais desaparecem completamente sob ruído local constante. Um dos exemplos mais emblemáticos envolve o chamado “teste de pureza quântica”, usado para distinguir estados quânticos perfeitamente organizados de estados aleatórios. Em condições ideais, um algoritmo quântico poderia resolver essa tarefa usando apenas um número constante de amostras, enquanto um computador clássico precisaria de um número exponencialmente maior.
Mas a nova análise mostra que basta uma única camada de ruído para destruir essa vantagem. O custo experimental cresce exponencialmente com o tamanho do sistema.
A implicação é profunda. Muitas das promessas mais celebradas da computação quântica dependem precisamente desses protocolos altamente sensíveis.
Ainda assim, o trabalho não representa uma sentença de fracasso para a área. Pelo contrário: os pesquisadores identificam caminhos em que vantagens quânticas permanecem possíveis, desde que apoiadas em estruturas físicas naturalmente resistentes ao ruído.
Um dos exemplos mais surpreendentes do artigo vem da física de buracos negros e da chamada correspondência holográfica AdS/CFT — uma das ideias mais sofisticadas da física teórica moderna. Utilizando o chamado código HaPPY, um modelo de correção de erros inspirado em holografia quântica, os cientistas demonstraram que certas propriedades quânticas poderiam continuar detectáveis mesmo em ambientes ruidosos.
Nesse cenário, um estado quântico representando um “microestado” de buraco negro é protegido por uma estrutura geométrica que reduz os efeitos do ruído. Isso permite recuperar parte da vantagem quântica perdida.

“Os sistemas físicos podem possuir robustez endógena”, afirmam os autores, citando fenômenos como correlações de longo alcance e dinâmicas térmicas resistentes a perturbações.
Outro avanço importante do estudo envolve a chamada “tomografia quântica”, processo usado para reconstruir estados quânticos a partir de medições experimentais. Os pesquisadores descobriram que, embora vantagens exponenciais desapareçam em ambientes ruidosos, ainda podem sobreviver ganhos polinomiais relevantes.
Os cálculos mostram a existência de um limiar crítico de ruído — aproximadamente 20% — abaixo do qual algoritmos quânticos continuam oferecendo desempenho superior aos métodos clássicos. Acima disso, a vantagem praticamente desaparece.
O estudo também atinge outra área estratégica: a metrologia quântica, ciência responsável por sensores ultra precisos capazes de medir tempo, campos magnéticos e gravidade com precisão extrema. Segundo os autores, o chamado “limite de Heisenberg” — considerado o auge da sensibilidade quântica — só pode ser mantido por intervalos limitados quando existe ruído contínuo nas interações experimentais.
A consequência prática é que futuros sensores quânticos, apesar de promissores, terão desempenho condicionado pela qualidade física do ambiente em que operam.
A nova teoria também reorganiza o debate sobre o futuro da computação quântica. Em vez de buscar apenas vantagens exponenciais abstratas, os pesquisadores defendem uma abordagem mais pragmática: identificar problemas específicos em que pequenas vantagens robustas possam gerar impacto científico e industrial real.
“A questão deixa de ser apenas se existe vantagem quântica, e passa a ser como essa vantagem degrada com o ruído, a profundidade do circuito e os recursos disponíveis”, afirmam os autores.
O artigo chega em um momento decisivo para a indústria quântica global. Empresas como IBM, Google e Microsoft disputam liderança em arquiteturas quânticas cada vez mais sofisticadas, enquanto governos investem bilhões de dólares em programas nacionais de tecnologia quântica.
Mas o novo trabalho sugere que o verdadeiro desafio talvez não seja apenas construir computadores maiores — e sim construir sistemas capazes de sobreviver ao caos inevitável do mundo físico.
Ao final, o estudo oferece uma visão mais madura e menos utópica da computação quântica. O futuro quântico continua possível, mas provavelmente será mais complexo, mais limitado e muito mais dependente das leis fundamentais da física do que imaginavam os cenários mais otimistas.
Referência
Cotler, J., Gong, W. & Kannan, I. Teoria da aprendizagem quântica ruidosa. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-73693-x